Revendo esta matéria que circulou neste semanário em 1997, por seu conteúdo, achamos por bem, trazê-la novamente ao crivo de nossos leitores e perguntamos: Ela é ou não, atual?
É claro, não tratar-se de “premonição” do editor: a verdade é que, infelizmente, ainda hoje a mesma história se repete e o que é pior, há décadas! O mesmo ocorre com os crimes ambientais e outros que, por aqui, tem se reproduzido ano a ano. Sempre trazendo prejuízos ambientais, sociais, e econômicos de grande vulto e, via-de-regra, em desfavor dos mineiros! Chega de enrolação! Já passou da hora de nossas autoridades cumprirem minimamente seus deveres constitucionais, assim como o juramento de defenderem nosso Estado. Se não, a história as registrará como nossos algozes e mais que isto, como coniventes.
Furnas – uma questão meramente política
Em vinte e oito de abril de 1997 publicamos uma fotomontagem onde parte do Lago de Furnas está totalmente seco, pois contava àquela época com apenas 6,9% de seu volume útil. A foto mostrava ao fundo, em segundo plano, alguns camelos, numa alusão ao deserto em que se transformou uma região que há poucos anos era tida como das mais belas e propícias para a exploração turística e agrícola. Trinta e quatro municípios banhados pelas águas represadas por Furnas eram tidos como promissores e, portanto, recebiam vultosos investimentos nos setores acima mencionados.
Formiga, Pimenta, Guapé e Capitólio, em especial, atraiam além dos investimentos, enorme volume de turistas sendo apontados como os prováveis propulsores da inversão da fuga do fluxo turístico para esta região. Até então, era voltado para os estados do Rio, Espírito Santo e Bahia, na procura de lugar adequado para os esportes náuticos. Por aqui, centenas de garagens, marinas, ancoradouros, clubes, lojas especializadas em equipamentos de pesca e náutica, oficinas, restaurantes, hospedagens, supermercados e outros investimentos carreavam para a região, milhares de dólares e com eles, empregos, muitos empregos destinados a uma mão–de-obra que aos poucos foi sendo formada. Pois bem, de repente, vem o segundo governo Fernando Henrique Cardoso, sem dúvida um dos mais desastrosos que este país já viu e, na ânsia de privatizar, ao ser rechaçado com violência pelo governador e lideranças mineiras que com ele não concordam, especialmente quanto à privatização das Centrais Elétricas de Furnas, o lago formado pela represa começa a ser, paulatina e criminosamente, esvaziado a partir do ano de l998.
Em 12/7/2000 nosso lago apresentava um volume útil de água, da ordem de 34,7%. Ora, se considerarmos que o esgoto não tratado de toda a bacia de Furnas, que é carreado para o lago, mais os agrotóxicos utilizados em seu redor pelos milhares de agricultores, não é muito difícil saber-se o que acontece hoje com a fauna e a flora, antes abundantes no lago. Com a diminuição do volume, é óbvio que a diluição dos poluentes está muito mais concentrada, portanto… Este governo deve e precisa ser responsabilizado por tamanho crime contra a natureza.
Dizer que o regime de chuvas é o responsável pela atual situação é balela, pois, de janeiro a junho de 98, a vazão afluente somou média de 821,16 m3 /s; em 99, 1.031,8 m3/s e em 2.000, 1.244, m3 /s. Quanto à geração, basta que se analise a vazão turbinada: Em 98, a média nos seis primeiros meses foi de 850,16 m3 /s; em 99, 777,00 m3 /s e em 2.000, 948,16 m3/s.
Portanto, está comprovado que as chuvas contribuíram com muito mais água que em anos anteriores quando o nível era mantido em cota superior. Comparando 1999 e 2000 teremos uma média de volume turbinado superior ao de 99 em mais de 22%, o que mais uma vez comprova que a política mudou muito pois, nos seus mais de 40 anos de existência, o lago nunca esteve em limites tão baixos. Em 99 chegou a reter apenas 6,9% em seu limite mínimo quando se sabe que com apenas 6% é preciso suspender a geração.
Incompetência ou falta de previsão? Em maio de 1990, acumulava 65% de seu volume útil e este ano, à mesma época apenas 53%. Portanto, de maio à segunda semana de julho, baixou de 53% para 34,7%, o que nos faz pensar que, se mantido o ritmo, em setembro estaremos próximos ao mínimo admitido. Enquanto isso, a jusante de Furnas, os outros reservatórios, especialmente os de São Paulo para baixo, estão mantendo seus níveis de estoque de água próximos ao limite máximo.
Furnas está gerando para atender cerca de 40% da demanda nacional. Portanto, o problema é político ou não? Fomos pessimistas como muitos disseram quando na edição 167, de 28/4/2000 nossa manchete alertava: “Furnas: o deserto do amanhã”!
Revejam as fotos da capa de 97 e comparem os gráficos de vazão afluente e defluente nos primeiros seis meses de 98 a 2000. Somos pessimistas ou existem motivos reais para imaginarmos que os milhões em investimentos feitos na região correm sérios riscos? E os turistas migrarão ou não para outros pontos? O Estado de Minas Gerais que investiu milhões, por ordem de um governador tucano, que pagou caro para que se elaborasse um Plano Diretor para o Lago de Furnas (assinado pela Gerc-Inatur, empresa espanhola), e que fez com que muitos de nós acreditássemos na implantação da indústria turística e de outras, todas diretamente dependentes do lago, pode hoje, por capricho de um governo do mesmo PSDB do senhor Eduardo Azeredo, governador de então, ver esvaírem milhares de possibilidades de geração de empregos e divisas?
Se política é mesmo a arte de conversar, de negociar, é bom que comecemos logo a pensar mais seriamente sobre este assunto, antes que os camelos habitem de vez a região, quem sabe em substituição aos burros, tradicionais carregadores de peso e membros da espécie símbolo da estupidez e renitência!
Dizemos isto porque não nos parece nada inteligente fazer com que uma indústria como a turística, em expansão em todo o mundo e, sabidamente, a que disporá nas próximas décadas de cada vez mais clientes em potencial, sucumba por inanição e inação de alguns, e o que é pior, exatamente ao lado deste imenso pote d’água.
Nova Imprensa – edição 179 – 21 de julho de 2000 – consulte a edição completa disponível no site: www.novaimprensa.inf.br







