Duda Salabert (PDT) é a primeira travesti eleita para a Câmara dos Deputados, com terceira maior votação em Minas, nesse domingo (2), com mais de 208.208 votos.

O diálogo com o ex-prefeito Alexandre Kalil (PSD) e o prefeito de BH, Fuad Noman (PSD), a mobilização em favor da Serra do Curral e leis em defesa das mulheres e de pessoas trans marcaram a atuação de Duda na Câmara Municipal da capital.

“Foi uma vitória dos direitos humanos. Fazemos parte de um país em que 90% das travestis e transexuais estão na prostituição. Isso já mostra que nunca fomos pauta de política pública da esquerda, da direita, do centro. Ter essa vitória é forma de alargar a democracia”, disse Duda. Ela avaliou que mesmo o Congresso ter reforçado candidaturas conservadores, não apaga vitórias indígenas e candidaturas trans que “dão nova cor e novo tom no modo de construir política.”

Neste domingo, Duda votou de colete a prova de balas, na seção eleitoral do Centro Universitário Newton Paiva, no Bairro Caiçaras, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Uma exigência da escolta de Duda, que recebeu nove ameaças de mortes durante a campanha.

Foram eleitas três mulheres trans para a Câmara dos Deputados: Duda por Minas, Robeyoncé por Pernambuco e Erika Hilton (80.690) por São Paulo (256.902).

À frente da ONG Transvest, conquistou o auxílio a 90 travestis e demais transgêneros que exercem trabalho sexual, no valor de R$ 100. Duda também ajudou a fundar a primeira casa de acolhimento pessoas trans em situação de rua e fundou o Transvet. No entanto, Duda defendeu os direitos de pessoas trans, mas não se restringiu apenas a essas causas.

Duda iniciou a trajetória política pelo PSOL, mas, em abril de 2019, deixou a agremiação com críticas à estrutura partidária, considerada por ela, transfóbica. “Deixo o PSOL por não concordar com a transfobia estrutural do partido. Enquanto vegana, ambientalista e defensora dos direitos dos animais, não posso aceitar que a luta para difundir o respeito às vidas de todos animais fique em segundo plano”, disse à época.

Filiada ao PDT, Duda enfrentou críticas tanto da direita quanto da esquerda. “Não sou uma pessoa de partido, sou de campo. Reconheço a importância do partido do ponto de vista político, programático e ideológico, mas mais importante que avançar no partido é avançar no campo pragmático. Sou fiel ao campo progressista”.

Antes de ser vereadora, Duda atuou por por 20 anos na educação, sendo 15 deles como professora de literatura no Colégio Bernoulli. A entrada na política ocorreu em 2016. “Decidi entrar na política depois do golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Entendi que haveria a partir da cisão democrática um esvaziamento do campo democrático  e seria necessário estar na política contra a classe trabalhadora que viria”, avaliou.

Duda afirma que não tinha intenção de se candidatar, mas, em 2018, rejeitou disputar o governo e aceitou sair para o Senado, mas não venceu. A candidatura ao Senado, como ela define, foi uma “ferramenta pedagógica para conquistar novas consciências”. “O importante não são novas leis, mas novas consciências, que a gente estava disputando”, completou.

Em 2020, foi eleita a vereadora mais bem votada da história de Belo Horizonte, com 37 mil votos, e trabalhou para ser muito bem votada na disputa para a Câmara dos Deputados. “Não basta só eleger. Temos que ser bem votadas para chegarmos com capital político, que nos dê possibilidade de pautar nossos projetos com maior chance de aprovação”, afirmou.

Professora de literatura, Duda escolheu o clássico Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, como o livro predileto. “Todos os professores e professoras têm alma quixotesca, sempre lutando contra moinhos de vento e tentando mudar o mundo”.

Atuação na Câmara

Em Belo Horizonte, Duda travou um embate com o vereador Nikolas Ferreira (PL), que conseguiu a maior votação para a Câmara dos Deputados em Minas em toda a história, com mais de 1,4 milhão de votos. “Os projetos que pautei na cidade foram aprovados. Consegui conquistas para BH, em um ano de mandato, maiores que vereadores que têm dois ou três mandatos. Não é só a qualidade parlamentar, mas se deve ao fato de ter chegado bem votada”.

 

Duda atuou em conjunto com a gestão de Kalil na construção da lei que garantiu a distribuição de absorventes nas escolas. Outra lei proposta por ela foi a instituição da Semana Mundial de Brincar. “Cidade para criança é cidade boa para os adultos e para os idosos”. É de autoria dela também a lei que determina a presença de intérpretes de Libras, nas maternidades, para acompanhar mães surdas. Na avaliação de Duda, a medida evita que essas mulheres sofram violência obstétrica.

 

A defesa do meio ambiente foi a frente de atuação da vereadora que a projetou. Tornou-se uma das principais opositoras à autorização dada pelo governo de Minas à Tamisa para minerar na Serra do Curral. “A Serra do Curral ter se tornado um assunto não só nacional como internacional se deve muito à nossa luta para o tombamento da Serra do Curral”, argumenta. Quando foi eleita vereadora, Duda prometeu plantar uma árvore para cada voto recebido. Neste primeiro ano, o mandato plantou cerca de 3 mil árvores, e junto às escolas, outras 50 mil árvores.

Maternidade

Duda foi a primeira travesti, na história do Brasil, a conseguir a licença maternidade. “Foi uma conquista nossa  ter 120 dias de licença pelo INSS. Uma  revolução do ponto de vista pessoal”, afirma ela, que é mãe de uma menina de três anos com a companheira. “Estar na política é uma forma de lutar pelo mundo melhor pela minha filha de três anos”.

 

Ela lamenta que vida política tenha reduzido o tempo dedicado à filha. “A campanha eleitoral é um desgaste muito grande, tenho estado muito ausente por causa da campanha eleitoral”, diz ela que leva a filha para o balé, natação e aula de música. “Reconheço que o maior bem que temos é a nossa família”, diz ela que usa o desenho animado Patrulha Canina para explicar à filha qual é o seu trabalho. “Saio sempre tal qual a patrulha canina resolver os problemas que a prefeitura tem gerado”.

 

Duda afirma que assumiu uma posição independente em relação aos governos de Alexandre Kalil e Fuad Noman. “Quando  é um projeto ruim para a cidade, voto contra. Quando é bom, sou favorável.” Ela afirma que, na política, adota o diálogo. “Quando a palavra falha a violência entra em cena. Política espaço do diálogo”, pondera. No entanto, ela afirma que alguns pontos são “inegociáveis”: “defesa das serras, águas e dos direitos humanos”.

Desinformação

Duda afirma que nesta campanha, como ocorreu na campanha de 2020, ela recebeu ataques da direita e de uma parcela da esquerda. Ela afirma que da ultra direita recebeu ameaças de morte e por setores da esquerda foi atacada com fake news. “Como vice-presidente do PDT e ajudei a construir chapa mais à esquerda, mais até do que alguns partidos, que se dizem de esquerda”.

Fonte: Estado de Minas

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